Domingo, 29 de Abril de 2007
A comunidade das democracias, o Henrique e a Índia
Este já dizia o mesmo Henrique anda tão entusiasmado com uma possível "comunidade  das democracias" que até já me pediu para eu retirar o ponto de interrogação com que eu relativizo a ideia no meu último post. Eu percebo o entusiasmo. A ideia é gira, tem potencial e não é nada nova (tem mais de duzentos anos: Project for a Perpetual Peace). Mas eu, que ando por aqui num destes países que o Henrique e mais alguns vêem como integrando essa comunidade, tenho as minhas dúvidas. Dúvidas que expressei na minha Passagem para a Índia no número de Fevereiro da nossa revista, e que convido o Henrique a (re)ler.



Não está em questão se a estratégia da comunidade das democracias, que Diana Soller comenta no Público de hoje, é ou não um projecto interessante e com pés para andar. O que eu questiono é a forma e os objectivos com que a ideia está a ser posta em prática, a partir de Washington. Questiono mesmo se ela está a ser posta em prática, ou se ela já sucumbiu ao peso da sua utopia e ao peso dos interesses mesquinhos que por trás dela se escondiam (em Washington). Convido os mais optimistas a lerem o ensaio de Jorge Almeida Fernandes, igualmente no Público de hoje, em que este narra a queda dos neocons na figura de Paul Wolfowitz: "Sentem que o seu projecto revolucionário de "exportar a democracia" pelas armas e remodelar o mapa do Médio Oriente "morreu pelo menos por uma geração". Para piorar as coisas, o seu mais notável expoente, Paul Wolfowitz, está sob suspeita no Banco Mundial. Prometeu moralizar o mundo e fez, como de costume, tudo ao contrário".

Claro que o Henrique irá ripostar com um punhado de "democracias não-ocidentais" e lançar-me uns "factos e números" que, supostamente, reflectem a renovada forma com que os Estados Unidos têm procurado uma aproximação a esses países. Mas, novamente, o que eu sugiro é que o Henrique, e demais crentes na tese, vejam o significado de epifenómeno num dicionário. Esta comunidade das democracias, se é que é uma estratégia norte-americana (já alguém a assumiu oficialmente?), não passa disso mesmo: uma ideia embrionária condenada a ser abandonada por outra, logo que assim der jeito.

Passagem para a Índia, Constantino Xavier em Nova Deli (Atlântico de Fevereiro)

REALITY CHECK

Tal e qual um Porsche (ou talvez um Tata), a imprensa portuguesa acelerou dos 0 aos 100 e redescobriu a Índia. A ida de Cavaco Silva a Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore, e a forte orientação económica da visita, resultaram numa glorificação e caracterização eufórica do país que, ainda há pouco tempo, era imaginado como um pobre feudo espiritual de encantadores de serpentes. De repente, já só vemos um belo e gigante elefante.

Para o meu colega Henrique Raposo, a Índia até faz parte do lote de “democracias tão democráticas como as democracias europeias” e apresenta-se, por conseguinte, como uma séria candidata a um eixo democrático pós-ocidental ou pós-europeu, com centros de poder em Brasília, Pretória (ou Tshwane?), Tóquio, Nova Deli e Canberra.

É louvável haver quem lance um olhar prospectivo, escavando uma possível transformação sistémica da penumbra do actual status quo, mas o processo corre o risco de sucumbir à hipérbole. Equacionar a democracia indiana às suas históricas congéneres europeias reflecte um olhar superficial. De longe, elas (as democracias) às vezes até parecem giras. A constituição indiana é a mais longa do mundo – um lindo tratado democrático – mas os factos, a prática e o terreno dão-nos a conhecer a real natureza infantil da democracia indiana.

O PIB per capita da Índia democrática é duas vezes menor do que o da autoritária China. Enquanto que Pequim está entre os cem primeiros países em termos de índice de desenvolvimento humano (81º), Nova Deli fica-se por um modesto 126º lugar.

Num país em que se gasta pouco mais de 3% da despesa pública na educação (8% na China), e onde mais de um terço da população é analfabeta, é natural que o acesso a posições de poder seja restrito. E quando lá chegam, por vias de quotas, os pés-descalços são submetidos à elite burocrática – os “yes, minister” do poderoso Indian Administrative Service que comanda o destino do país.

Enquanto que a palavra superpotência é reincidente no léxico indiano, em termos de despesa pública para a saúde, as Nações Unidas colocam a Índia atrás da Serra Leoa e do Níger. Quanto às infra-estruturas, bastará lembrar que, enquanto escrevo este texto num subúrbio considerado abastado, na capital do país, já houve cinco cortes de energia – um dia ordinário.

Nem valerá a pena enveredarmos pelo sinuoso caminho que é a tradição democrática da política externa indiana. Ela sucumbiu sempre aos grandes jogos da realidade. Para além dos históricos episódios da independência do Bangladexe, e da invasão soviética do Afeganistão, o presente oferece-nos agora o pouco democrático maquiavelismo com que Nova Deli lida com a ditadura militar birmanesa, bem como o caso do Irão, em cujo programa nuclear se encontraram envolvidas algumas das suas empresas.

Faz tudo parte do drama dos bastidores que o esburacado pano democrático indiano tenta esconder. Mas então, porquê toda esta euforia pós-ocidental? Simplesmente, porque é do próprio interesse do mundo ocidental e ocidentalizado promovê-la, para servir os seus propósitos, principalmente económicos. Referindo-se à futura entrada da multinacional Wal-Mart no mercado indiano, um empresário (indiano!) referia recentemente que “Brazil is done. China is done. This is the last Shangri-La”. É talvez assim que se explique a razão pela qual, há já mais de três décadas, somos confrontados com repetidas “novas emergências”, do Brasil ao Japão. São emergências que nunca realmente emergem.

Manter os sinos a tocar a rebate incessante é também do interesse da imprensa, ciente em inventar novas modas e histórias. Inventa-se uma emergência aqui e, pouco tempo depois, uma outra acolá. Gostamos de ver os outros satisfeitos, mas q.b. e, já agora, à nossa maneira – democrática e ocidental. É assim que se compreende a euforia em relação à Índia de hoje.

Não há dúvida que algo se passa a Oriente e, no caso indiano, é impossível negar o relativo sucesso do seu sistema democrático ou negligenciar o seu crescimento económico e a sua ruidosa voz no panorama internacional. Mas ao abrirmos os olhos para a Índia, e para esse admirável mundo novo que, na realidade, tem idade para ser o nosso tataravô, convêm que o façamos de forma moderada. Sair da escuridão do armário para enfrentar a luminosidade do mundo, pré-, pós-, ante-, sub-, ou o que quer que ele seja, é um processo doloroso porque nos cega. A solução estará algures entre o defensivo oito dos conservadores do Restelo e o histérico oitenta dos catastrofistas que anunciam o fim do nosso mundo e o início de um novo, o dos Outros.

publicado por Constantino Hermanns Xavier
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