Domingo, 29 de Abril de 2007
Claustrofobia constitucional, II
Factos:

- Os tribunais lançam decisões que fazem lembrar Paulas Bobones do Salazarismo. Os juízes, no ano da graça de 2007, acham que é “irrelevante” o facto de os jornais contarem a verdade. Como essa verdade põe em causa o bom nome de X, então, é “crime”. O respeitinho é coisa tão bonita, não é?



- Cartão Único. Por detrás do culto da eficácia esconde-se o facto: com esta coisa 5 em 1, um gajo com um crachá qualquer pode vasculhar a minha vida. Não há liberdade sem privacidade. Isto é como viver em paredes de vidro. Era esta a metáfora do Zamiatine.


- Centralização das polícias. A metáfora de Zamiatine deixa de o ser. Passa à condição de realidade. E o ministro acha muita piada e ri-se com aquele riso [preencher que o adjectivo que achar indicado] da impunidade do poder. E ninguém, neste país, mexe uma palha. Os jornalistas acobardam-se e não fazem pressão. A oposição até acha graça à medida. A extrema-esquerda gosta. A centralização policial faz parte do seu ADN. A direita que temos gosta mais de segurança do que de liberdade. É a cultura política que temos: ou comício (de jacobino para cima) ou sacristia (de beata desdentada para baixo).


- A palhaçada da ERC. Aquele sinistro discurso salazarista na boca daquele senhor careca do Porto. A prova de que pode existir censura em democracia. A democracia é só uma forma de escolha do poder. Não é a garantia de nada em termos de liberdades civis. A Venezuela e a Rússia são democracias.


- Há ainda em curso uma ridícula legislação sobre imprensa e jornalismo. Se for aplicada, o jornalismo deixa simplesmente de existir. Os jornalistas passarão a ser receptores passivos das agências e dos assessores de imprensa do poder. Aliás, já o são, como se comprova todos os dias. Dá menos trabalho, afinal. Não se tem de levantar o traseiro da redacção para ir investigar. Fica-se à espera, enquanto se fala no Messenger.


- Finalmente: 700 mil pessoas são seduzidos para a arte da delação. Estaline ir adorar. Transformar o pior que há nos homens (mesquinhez; lixar o próximo por inveja ou afins) num acto de pureza cívica. O ser-se bufo passa a ser sinal de pertença a forte estirpe ética. Um anti-americanismo para pessoas com a 4ª classe, portanto. Faz-se uma mijinha de ódio e passa-se à condição de puro.


Mas há mais. Alguém se lembra do caso 24 horas? (sinal do inconcebível desajuste institucional entre o poder democrático e a estrutura jurídica). Das cartas do PM ao tribunal constitucional? Da forma como o Ministro Pinho impediu que o tipo da ERSE fosse ouvido no parlamento?



publicado por Henrique Raposo
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