Domingo, 29 de Abril de 2007
India, Concerto de Democracias
Grande Constantino,
Primeiro: não tenho qualquer entusiasmo pela ideia, pela simples razão de que isso só vai tirar ainda mais poder, influência e
status aos europeus e ao espaço atlântico. E eu, até prova em contrário, sou europeu e vivo no Atlântico. Não defendo a coisa normativamente. Apenas a constato analiticamente.
A tal comunidade, concerto, o que quiseres, de democracias, não vai ter sede/edifício/hino/bandeira, nem será declarado oficialmente. Não vai ter, não tem, o carácter explícito da política da guerra-fria a que ainda estamos habituados. Isto não é a UE ou a NATO à escala global. Voltámos para a política como ela sempre foi: regras implícitas, saber ler nas entrelinhas. O tempo em que era fácil investigar a política internacional acabou. Se procuramos as coisas apenas em edifícios com muitas bandeirinhas à portas não vamos perceber nada.
A Índia é um caso à parte, porque está em aproximações novas (EUA, Israel, Japão, a mudar os seus modos de ver o mundo e a própria maneira como olha para si mesmo, etc, etc, não vou estar a ensinar a missa ao padre). Estamos ainda a namorar, digamos assim. Mas atenção: a Índia não é o centro do mundo (ao contrário do que o novo riquismo indiano pode fazer crer); pode haver concerto de democracias sem a Índia. E a Índia pelas fronteiras que tem nunca poderia explicitamente dizer sim a uma coisa destas. Depois, onde a ideia de concerto de democracia mais tem peso é no Japão (lê o Abe), Austrália , EUA e trocos no Pacífico e Índico. A grande questão é: para onde vai
swingar a Índia? Há 10 anos, seria impossível pensar que a Índia poderia sequer pensar em dançar com as democracias liberais. Hoje muita coisa mudou, e já há muita gente, indianos incluídos, a falar em dança demo-liberal, com Índia incluída, em redor da senhora dona China. Não sou eu que quero. É o que se fala nos círculos de poder e é o que anda a ser feito. A marinha americana e indiana em operações no Índico, etc, etc, etc?
Outra coisa: as administrações americanas nunca têm apenas uma face, uma voz única. Se os neocons borraram a pintura no Médio Oriente, o Armitage apadrinhou o novo Japão, o Burns e a Rice seduzem a Índia. A política da administração não está apenas naquilo que a Casa Branca diz. É preciso ler, literalmente, o State Department. E uma política pode nascer sem ser explicitamente declarada na TV. E há mesmo coisas que convém manter fora da TV: parece que os chineses e russos também têm televisão em casa.
Grande Abraço,
Henrique
PS: podemos é continuar isto na Revista.