Do que se diz sobre a gripe (I)
No Blasfémias, o João Miranda publicou um post sobre a gripe, onde deixa duas perguntas pertinentes.
Perguntas acertadas, assertivas, mas retóricas. Ficando sem resposta dão azo ao volume de opiniões ignorantes que encheram a caixa de comentários do respectivo post.
A primeira tem uma resposta óbvia: o Ministério da Saúde quer resolver o problema da afluência aos Serviços de Urgência Hospitalares do dia para a noite. Como se perceberá, isto não vai acontecer. O auto-diagnóstico e a auto-medicação seriam procedimentos normais numa sociedade minimamente instruída. Existem doenças de apresentação tão básica, como é o caso da gripe, que qualquer pessoa deveria saber diagnosticar. Mais, a mesma pessoa deveria saber que a mesma se trata com repouso, controlo da febre através de antipiréticos tão simples como o paracetamol ou o ibuprofeno e, se necessário, um bom descongestionante nasal. Mais, deveria qualquer cidadão reconhecer os sinais de alarme em si e nos outros. Deveria saber que, para o exemplo dado, se a febre persistir mais do que 3 dias, se houver dificuldade em respirar, se houver prostração marcada ou alterações do comportamento, deveriam recorrer ao seu Centro de Saúde. E seria no Centro de Saúde onde se faria a triagem dos doentes a precisar de observação e eventualmente internamento hospitalar.
Mas o cidadão não sabe, nem aprende. Não precisa. O Estado Português é paizinho e quando precisarmos dele, seja porque queremos um Magalhães, seja porque precisamos de dinheiro emprestado, seja porque estamos com febre, corremos logo em seu socorro. Não procuramos saber o que é uma gripe, uma gastroenterite ou um torcicolo. Tão pouco procuramos saber que são doenças que se tratam em casa. Não procuramos saber atempadamente o horário do nosso Centro de Saúde local, para o caso de realmente precisarmos de ajuda médica. Ao primeiro sinal, dispara a sirene e corremos para a Urgência 24h mais próxima, qual loja de conveniência.
