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blogue atlântico

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02
Jan09

Impunidade

Bruno Vieira Amaral

Há uns anos, Pinto Balsemão diagnosticou o cancro da sociedade portuguesa: a impunidade. A impunidade cria um vazio moral. Se o castigo não existe, nada é crime, tudo é possível. O que sobra é a consciência de cada um. Mas a consciência que condena Raskolnikoff também é a consciência que absolve Judah Rosenthal, nesse ensaio sobre a impunidade que é a obra-prima de Woody Allen, Crimes e Escapadelas. Vejamos o caso dos antigos gestores da Gebalis. A empresa acusa-os de gastos “supérfluos e sumptuários”. Desde refeições de 500 euros a 4500 euros em cheques-brinde da Fnac, a consciência dos gestores permitiu-lhes tudo porque a impunidade molda, adormece ou, em casos extremos, elimina a consciência. Os dilemas morais dão excelente ficção: mato a velha? Mando matar a amante incómoda? No cruzamento entre vida real e ficção de capitais públicos que é a Gebalis o dilema estava resolvido à partida. Se querem dilemas dilacerantes não juntem estes três ingredientes: empresa pública, cartões de crédito e impunidade.

 

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