Terça-feira, 31 de Julho de 2007
Junkie das fotocópias

Prosa antiga, publicada na primeira Atlântico do Paulo Pinto Mascarenhas, a n.11, Fevereiro 2006. Porquê relembrar agora? Porque me apetece, e porque tenho inveja desta gente que tem férias de 4 meses, ou assim.
Junkie da fotocópiaÀ pergunta “Qual é o negócio que rende?”, respondo sempre “Abre já uma banca de fotocópias”. Portugal deve ser o único país do mundo que tem na fotocópia um dos caminhos certos para a fortuna. Um fenómeno do capitalismo moderno. E qual é a causa deste fenómeno? Toda a gente sabe: o aluno universitário português, o ‘junkie’ da fotocópia. Funda-se uma universidade; no imediato, com o desembaraço da esperteza, começa a nascer uma matilha de bancas, lojas ou quiosques de fotocópias em redor da dita universidade. Um cerco. Total e absoluto. E eis a mensagem dos sitiantes: se queres ser universitário, tens de ter cartão de fotocópias. [...] estas bancas são como o ácaro em cima da alcatifa [abraço para o MEC, o gajo que melhor escreveu sobre alcatifas, esse fenómeno tão português dos anos 80]. Quem quer tirar um curso tem de estar preparado para chafurdar no pó desta alcatifa empoeirada que é a Universidade portuguesa. E sabem qual é o resultado? Quem acaba a licenciatura fica com alergia à leitura. Para o resto da vida. É natural: afinal são quatro ou cinco anos a ler pedaços dispersos de livros. Nacos de prosa mortos. Infectos no cheiro, feios no aspecto. "É favor encadernar isto, sff". Fica tudo preso naquelas argolas idiotas que parecem brincos de uma qualquer tribo africana.Livros? Nem vê-los. Parece que são caros. Para quê um livro quando se pode ter umas fotocópias enroladas num cordel ou presas por um elástico? No final do curso, percebe-se que o aluno português não criou uma biblioteca. Criou, isso sim, um Frankenstein de papel amarelado; um monstro disforme, um puzzle de milhares de páginas mortas armazenadas em caixotes de papelão. E no dia em que recebe o canudo, o aluno atira esses caixotes para a arrecadação. Aquilo que deveria ser motivo de orgulho e satisfação representa apenas náusea e esquecimento. A Leitura, o simples acto de Ler fica, assim, fechado a sete chaves, junto das batatas, das cebolas, dos sapatos velhos da mãe e das garrafas de vinho do pai. Mas a culpa não é dos ácaros. A culpa, na verdade, é de quem não limpa a alcatifa. São os próprios professores que entregam nas bancas os pedaços de livros a fotocopiar. Pior: há lojas de fotocópias dentro das universidades. Não há livrarias, mas há lojas de fotocópias. Lojas com pompa comercial e gente com bata de farmacêutico. [...] muitas vezes, as fotocópias já vêm sublinhadas e anotadas pelo professor. É o professor que lê pelo aluno. 'Tadinho. Paternalismo? Não. É preciso subir mais um degrau. Humilhação? Certo. A fotocópia é um regurgitar intelectual. A turma é reduzida a um ninho de crias, a um amontoado de passarinhos, piando. E neste ninho, como em todos os ninhos, todos fazem a mesma coisa. Ninguém procura nada diferente. Não se pergunta. Não se pensa. Fotocopia-se a Verdade já digerida por outrem. Somente. Quem sai desse ninho com os neurónios ainda intactos fica com um sonho para o resto da vida: queimar todas as fotocópias, mesmo todas, numa pira homérica, num auto-de-fé inquisitorial. Que tal? Estão interessados? Seríamos presos como pirómanos, mas valeria a pena. E a cinza não tem ácaro.