Hoje, Y fala de “literatura gay em Portugal”. Tudo bem. Mas só há um problema: só há boa ou má prosa; se o autor é gay ou não, pouco importa. Mais: a narrativa do livro pode ser sobre relações gay e, mesmo assim, esse livro não é necessariamente “literatura gay”. Se Eduardo Pitta é “escritor gay”, então, Sade é o quê? Um “escritor sadomaso”. E o Eça, coitado? Seria um “escritor heterossexual que não gostava de sexo oral”? O Rushdie? "escritor hetero sem pedalada para actrizes de Bollywood"? Esta deriva identitária não ajuda em nada na apreciação das obras e dos autores, seja na literatura, seja no cinema. O "Brokeback Mountain" é um grande filme e não um "filme gay".
Essa da "literatura-gay" (ou qualquer outra literatura com outro conceito à frente do hífen) não cola. É que, além de colocar bons escritores numa espécie de gueto, dá uma "respeitabilidade" a escritores medíocres. Aliás, a mediocridade precisa destes rótulos para sobreviver. “cinema gay”, “cinema alternativo”, “literatura gay”, tudo chavões que legitimam obras medíocres. Faz-me impressão ver Eduardo Pitta, por exemplo, na gaveta de “escritor gay”. O que interessa na escrita de Pitta é a forma como escreve. Uma escrita seca, laminada, cortada. Uma escrita de ouvires raríssima
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