O Eduardo Pitta diz que “literatura gay” é apenas um indicador, tal como “literatura fantástica”, “literatura policial”, etc. Ou seja, um género entre outros géneros. Com todo o devido respeito, Eduardo, não concordo.
O termo “literatura gay” refere-se à identidade privada do homem que, por acaso, é autor. O facto de X ser gay só deve interessar a quem lida com ele privadamente. O lado humano é irrelevante quando analisamos o autor. Consta que Céline era um pulha? E depois? Consta que Pasolini era gay? So what? O lado pulha e o lado gay são irrelevantes para apreciarmos as suas obras? Mais: o facto de Y ser gay não transforma per se a sua obra em algo digno de registo. Se assim fosse, então, a literatura não passaria de uma mera plataforma sexual e deixaria de ser uma forma de arte; uma formalidade artística que está acima dos gostos e fluidos sexuais de cada um, sejam homo ou hetero.
O homem morre, a obra não. Uma “obra” gay morre no dia em que o seu autor morrer (não é o seu caso).
“Literatura Gay” quebra esta distinção entre homem e autor. “Literatura Gay” é exclusiva de homens gays, logo, é um clube e não um género. Não se refere ao autor nem à obra, mas sim à identidade básica do homem que está antes do autor e da obra. Os géneros “fantástico” ou “policial” são referentes à obra. Estes géneros têm convenções que são “universais”, exteriores à identidade privada do homem. É por isso que são géneros. Qualquer pessoa pode escrever um policial. Nem toda a gente pode escrever um romance gay.
Gore Vidal e Pasolini diziam, e bem, que não há gays; só há pessoas que fazem actos sexuais homossexuais. Vidal e Pasolini recusavam, e bem, reduzir uma pessoa às suas necessidades sexuais. Digo o mesmo em relação à literatura. Recuso-me a reduzir (se for bom) ou a glorificar (se for mau) um autor através do termo “literatura gay”. Bem sei que estou a falar chinês para um tempo, o nosso, viciado no culto da(s) identidade(s). Mas isso já é outra conversa.
É por tudo isto que recuso classificar a sua escrita no género falacioso de “literatura gay”.
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