Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007
O declínio ocidental ou como relativizar “1989”

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No Público, domingo passado:


 


As obras de Niall Ferguson (historiador escocês; Harvard) são sempre marcadas por um revisionismo bombástico. Neste The War of the World, Ferguson vira de pernas para o ar a nossa percepção do século XX. O resultado é mais um brilhante exercício de revisionismo.


Reza a lenda que o século XX terminou com a vitória do Ocidente em 1989. Contra esta lenda eurocêntrica, Ferguson argumenta que o século XX marcou o declínio do Ocidente. As causas deste declínio ocidental são as mesmas que provocaram a violência bizantina do século XX: (1) a desagregação dos impérios, (2) a volatilidade económica e (3) o ódio racial. O fim dos impérios europeus (na Europa e no ultramar) originou sempre violência nacionalista/étnica, diz-nos Ferguson. A par desta desagregação política dos impérios, o autor salienta a desagregação económica da globalização. É bom lembrar que a I Guerra Mundial destruiu a primeira globalização, que parecia tão imparável e eterna como a actual segunda globalização. A volatilidade económica instalou-se nos sistemas monetários e o proteccionismo alastrou. Ora, um clima de instabilidade económica e de fragmentação imperial é o habitat preferido dos ódios raciais. Entre 1918 e 1953, a violência étnica foi a imagem de marca da Europa e do Extremo Oriente. Os «empire-states» de má memória (Rússia soviética, Alemanha nazi, Japão imperialista) viviam obcecados com o desejo patológico de homogeneidade étnica como solução para todos os males.


Ao longo do livro, Ferguson descreve a “Guerra do Mundo” (I Guerra Mundial, II Guerra Mundial) que estilhaçou a Europa, e a Guerra-Fria que foi estilhaçando, aos poucos, os impérios coloniais europeus. The War of the World acaba por ser uma espécie de crónica do suicídio ocidental e da emergência asiática – que começa agora a ser evidente. E Ferguson deixa-nos um conselho: fazíamos bem em relativizar a importância de 1989. Na Ásia, o fim da Guerra-Fria é visto como uma questão europeia (1989 não marca qualquer ruptura para os asiáticos). A data que marca a perspectiva oriental é 1979 (início da cavalgada económica chinesa).


O século XX não terminou com o predomínio ocidental (prisma do poder) ou com a vitória indiscutível da democracia liberal (prisma dos valores). O século XX terminou, isso sim, com os asiáticos a convergirem economicamente com os ocidentais e com a China a desenvolver um sistema político alternativo à nossa democracia liberal: o capitalismo iliberal. A China aceitou o capitalismo, mas não aceitou o liberalismo. E isso faz toda a diferença. Mais: se a força asiática comprova o declínio económico e geopolítico do Ocidente, a fraqueza islâmica, recorda Ferguson, não deixa de ser um problema. Porquê? Porque comprova o declínio demográfico dos europeus. Perante a fragilidade demográfica da Europa, o Islão tem exportado para as ruas das cidades europeias o radicalismo islamita através da bomba demográfica. O mundo islâmico não tem força para exportar carros e computadores para o Ocidente, mas exporta gente que tem esse estranho hábito de não gostar da Europa.


Em suma, no seu exterior e no seu interior, os ocidentais – sobretudo os europeus – estão confrontados com algo que não conheciam desde Vasco da Gama: não têm o monopólio da iniciativa; já não estão a jogar sozinhos. Isto não soa nada bem, provoca desconforto intelectual e um friozinho na barriga, mas é mesmo assim. E já é tempo de encararmos esta situação (interna e externa) de forma realista.




publicado por Henrique Raposo
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