Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
“Dizer Abril”
Nestas épocas comemorativas, dá a muita gente um surto de fervor lírico. A mim dá-me outra coisa: dá-me para me perguntar – o que é que esta gente pensa que é a poesia? Porque gostar de versos do género: Dizer Abril, / Abrir Abril na tua voz, /Lembrar / Quando, sem Abril, estávamos sós, / As sílabas silentes que Março ainda calava / Nos gestos vazios de não sermos nós parece, com toda a boa vontade do mundo, incompatível com o mínimo entendimento do que é a poesia. Para ficar por Portugal, gostar de coisas destas é estruturalmente incompatível com gostar, já nem digo de Camões ou de Sá de Miranda, mas de Cesário, Nobre ou Pessoa – ou, mais próximos, Herberto Helder ou Luiza Neto Jorge. É compatível, eu sei, com Manuel Alegre, com o pior (que é bastante) de Eugénio de Andrade, e com um engano, talvez perdoável, sobre certas coisas que Sophia de Mello Breyner escreveu. Mas isso quer dizer que é compatível com uma completa falta de sensibilidade (quer dizer: cultura) poética. E quando a gente vê o pessoal político a gostar de coisas deste tipo – e vemos muitas vezes -, é caso para nos perguntarmos: o que é que eles têm dentro da cabeça? Porque não se gosta de coisas assim impunemente. Este tipo de gosto, que não é acidental, reflecte-se no discurso e na acção. Injecta vacuidade. Isso vê-se e sente-se.

publicado por Paulo Tunhas
link do poste | comentar

pub
pesquisar
 
linques
blogs SAPO