Quarta-feira, 25 de Julho de 2007
O medo
Helena Matos fala hoje optimamente, no
Público, de “antropofobia”, a propósito de Sócrates e do espectáculo recente da apresentação da escola do futuro: o medo dos seres humanos, tal como eles inconvenientemente e sem aviso aparecem, por exemplo, na escola. Realmente e não virtualmente. E Manuel Alegre, no mesmo jornal, “escreve contra o medo”, como se lê na primeira página. Descontando o estilo, Alegre tem um bocado de razão, e Helena Matos, sem descontar nada, tem toda.
O que se pode acrescentar é que esse medo dos seres humanos (e a sua concomitante detestação) está intimamente ligado à micrologia, que também é uma especialidade deste governo. A ERC regulamenta ridículos pormenores. Vários organismos adoptam diferentes especialidades. Nada é indiferente, nem as bolas de Berlim. O vasto mundo exterior precisa de ser ordenado nos mais ínfimos detalhes para nossa segurança, e as novas tecnologias a vir dão-nos coragem no escuro. Tudo isto é perfeitamente imaginário e distante da empiria, mas percebe-se: protege. Um mundo quadriculado é mais seguro, afasta o que não passa pela rede. Não é, é claro, uma coisa original portuguesa, vem de fora. Mas, adaptado assim, tem um sabor nacional. Por detrás do seu didactismo militante, o primeiro-ministro esconde um verdadeiro micrólogo antropofóbico, uma máquina minuciosa de afastar a realidade por decreto. Infelizmente, somos nós a realidade. Infelizmente para nós – e para ele, porque a furar redes somos óptimos.
De
Pedro Sá a 26 de Julho de 2007 às 09:23
Ah sim, e a saúde pública que se lixe ?
De Carlos Conceição a 25 de Julho de 2007 às 18:37
Inteiramente de acordo!
Pode não ser uma associação correcta, mas não consigo deixar de pensar que a 'micrologia antropofóbica' a que se refere o digníssimo Paulo Tunhas é uma manifestação (decerto involuntária) da misantropia a que se refere Schopenhauer em O Fundamento da Moral...
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