Segunda-feira, 30 de Julho de 2007
Lamento por uma tradição perdida
A fazer as malas, e depois de passar algum tempo com a última
Atlântico (óptima, de resto) e de procurar saber o que é que os colegas vão ler nas férias (aprovo tudo, sem excepção), dei por mim a pensar que não reparei que neste Verão os jornais tivessem feito aqueles óptimos inquéritos de leitura tradicionais da época.
Uma rápida viagem ao passado fez-me lamentar o facto. É que havia coisas bem interessantes. De repente, vieram-me à memória duas. Lembrei-me do já desaparecido poeta Luís Veiga Leitão, que recomendava a leitura dos sonetos de Camões, uma ideia simpática mas dificilmente praticável na praia, ainda para mais com a possibilidade de um célebre cacófato de um não menos célebre soneto inspirar pensamentos pecaminosos e eventuais conflitos entre veraneantes forçados a ocuparem espaços muito próximos em areais sobrepovoados. E, sobretudo, lembrei-me de Edite Estrela. O que é que Edite Estrela anunciava, há já vários anos – o tempo passa… -, como sua leitura estival? Ora bem, nada mais, nada menos que
A origem da obra de arte, de Heidegger. Como se pode ver, a leitura que convém mesmo ao tempinho entre dois mergulhos, com a fatal criança choramingona ao lado e a senhora que berra: “Miguel, anda à mãe!” dez centímetros acima. A política precisa de gente assim.
E já não tem. Não tem? Se os jornais respeitassem os bons costumes, tinha, e muita. Nenhum político (com a previsível excepção de Alberto João Jardim) resiste a esta tentação, porque lhe permite insinuar profundidade de alma, amor pela cultura – e, de caminho, arranjar algum amigo escritor agradecido. Cada um pode fazer uma lista imaginária de políticos que gostaria de ver responderem ao inquérito. Luís Filipe Menezes, por exemplo, interessava-me enormemente.
É uma pena que as tradições se percam. As férias podiam ser bem mais divertidas. Esquecemos demasiadas vezes que uma das funções (e não das menores) dos políticos é divertirem-nos. Eu, pelo menos, ia-me rir dia sim, dia não. No mínimo.