Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007
“Os judeus”
O Paulo Pinto Mascarenhas escreveu um post sobre a profanação do cemitério judaico de Lisboa. Teve comentários que o acusavam de, indiferente a outras formas de racismo, ser unicamente, ou quase, sensível a esta. Não vale provavelmente a pena discutir a má-fé da acusação no que respeita ao Paulo: basta ler o que ele escreveu em ocasiões análogas, e, em geral, qualquer coisa que ele escreva, para perceber o absurdo preconceituoso dos comentários. Em contrapartida, eles são ilustrativos num outro plano. Uma parte não despicienda da esquerda, tal como uma parte não despicienda da direita (embora, esta, menos vocal), vive numa frágil linha entre a detestação de Israel (baptizada “anti-sionismo”, ou, em gente menos aguerrida, sem nome reconhecível) e um anti-semitismo que conhece várias tonalidades. A detestação de Israel é a alavanca para a suspeita levantada sobre quem condena o anti-semitismo. E, nesse sentimento de suspeita, a linha divisória entre “anti-sionismo” e anti-semitismo esbate-se. Falando dos outros, revelam-se a si mesmos. Os comentários feitos ao post do Paulo exibem isso perfeitamente. São, pura e simplesmente, ideológicos. Ideológicos de uma ideologia pouco recomendável.

publicado por Paulo Tunhas
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Comentários:
De Jazzanova a 28 de Setembro de 2007 às 21:33
Toda a gente sabe que Daniel Oliveira é judeu. Não se percebe muito bem este debate.


De José Carmo a 28 de Setembro de 2007 às 21:37
[Toda a gente sabe que Daniel Oliveira é judeu]

Tb toda a gente sabe que Miguel de Vasconcelos era português, que Cunhal tb era português e que os "sonderkommandos" eram judeus.

O habitual síndroma do "cristão-novo", ou apenas a vontade de parecer "diferente".


De Daniel Oliveira a 28 de Setembro de 2007 às 20:39
E que à direita ele não é um exclusivo da extrema da dita, espero que também me conceda.

Acho melhor não escrever mais hoje.


De paulot a 28 de Setembro de 2007 às 21:31
Caro Daniel,

Também notas finais por hoje, até porque, aparentemente, se encontra extravagantemente ocupado pela disputa psídica, que exige mais ânimo do que eu tenho, para além de uns reflexos mínimos elementares que me têm safado de um disparate ou dois, mas não de todos. Quanto à extrema-direita e ao racismo, certamente que sim: é o óbvio. Vou mais longe: na direita não extremista - penso, por exemplo, em Miguel Sousa Tavares (não é uma graça) - há imensos reflexos que não são anti-semitas (o verdadeiro e puro anti-semitismo é, em Portugal, raro), mas andam por perto, através de afinidades várias. Muitas, quanto a mim, desimportantizáveis; outras, decididamente, não. Depois falamos disso e de Impasses (eu li o que escreveu). Boa contagem de votos.

Paulo Tunhas


De Daniel Oliveira a 28 de Setembro de 2007 às 20:38
Já agora, as minhas desculpas pelo terrível português do meu comentário anterior, explicáveis pelo desespero com problemas técnicos aqui no meu computador. Fica o debate, então, para uma oportunidade futura. Aliás, aproveitarei então para discutir consigo o seu livro "Impasses", sobre o qual escrevi no DN quando foi publicado.

A aceitação de que há anti-semitismo à esquerda é apenas a aceitação de uma evidência. E que há direita ele não é um exclusivo da extrema da dita, espero que também me conceda.


De José Carmo a 28 de Setembro de 2007 às 17:25
[Acho abusivo falar de “cartilha comunista” é manifestamente abusivo]

Karl Marx:

"a sociedade burguesa engendra constantemente o judeu em suas próprias entranhas",
"O dinheiro é o Deus zeloso de Israel".

Karl Marx está a ser manifestamente abusivo....


De paulot a 28 de Setembro de 2007 às 17:30
Caro Daniel Oliveira,

Como saberá mil vezes melhor do que eu, discutir estas matérias em blogs - e, ainda mais, no subterrâneo dos comentários - não é possível sem simplificações extraordinárias. O papel dos jornais e revistas é melhor. Mas, mesmo assim, alguns comentários. Não "manipulei" absolutamente nada: limitei-me a descrever a lógica de um comportamento. (Volto a dizer que não estava a pensar em si quando escrevi o que escrevi; mas, com as cláusulas da resposta anterior, acho que o Daniel encaixa na coisa - que, insisto, é muito irrespectiva de sentimentos pessoais.) Talvez valha a pena elaborar - mas sem dúvida que não aqui. A mim basta-me - gosto sinceramente de o ouvir dizer isso; não há assim tanta gente de esquerda a dizê-lo - que há anti-semitismo à esquerda.Quanto à "cartilha comunista", referia-me, é claro, à tese segundo a qual um (subjectivamente) bom indivíduo pode, em virtude da sua classe, ser (objectivamente) muito convenientemente eliminável pelas forças do Bem. Quer chamar-lhe "cartilha estalinista" e não "comunista"? Não percebo porquê, já que a doutrina antecede Estaline, e não vejo utilidade grande em salvar o comunismo do horror patente que foi - mas não insisto. Por mim, descobri já um ponto de acordo que me parece fundamental: o anti-semitismo de esquerda. Não me apetece estragá-lo com vontade minha de ter razão em matérias dubitativas.

Paulo Tunhas


De Daniel Oliveira a 28 de Setembro de 2007 às 15:08
Já agora, não sou anti-sionista. O sionismo nasceu como de forma generosa. Sou apenas defensor dos direitos dos palestinianos a ter um país viável. Nada mais.


De paulot a 28 de Setembro de 2007 às 16:37
Caro Daniel Oliveira,

Era o que me faltava ir buscar na net os seus antecedentes familiares. Apenas duas coisas. Uma: pensava até (pela própria dúvida que o PPM exprimiu) que o comentário referido não era seu. Segundo: não lhe faço acusação nenhuma, absurda ou sensatíssima; falo de uma lógica interna a um tipo de reacções (a acusação ao PPM; reconhecerá que o "felizmente" ser sincero apenas muda a tonalidade afectiva, não a essência da reacção) que é largamente independente da posição pessoal das pessoas que a exibem.

Sou hiper-cuidadoso, acredite, na utilização da expressão "anti-semitismo". E não duvido por um só instante, porque o leio, que o Daniel não partilha essa abjecção. Escrever o que escrevi agora nada tem a ver com o "objectivamente responsável" (bom individualmente, mas péssimo na classe) da cartilha comunista. Tem a ver com a maneira como vejo as coisas, e com o facto de pensar, com razão ou sem ela, que as vejo melhor que o Daniel. O Daniel pensará exactamente ao contrário. Perfeito. Nestas coisas não há ciência - e, consequentemente, não há provas.

Paulo Tunhas


De Daniel Oliveira a 28 de Setembro de 2007 às 17:00
Caro Paulo Tunhas,

Quando usamos exemplos concretos para ilustrar posições gerais ou cuidamos de saber se esses exemplos concretos se encaixam no que dizemos ou estamos a fazer uma manipulação ou, pior ainda, uma manipulação. Disse o que disse, não por desvalorizar ataques a judeus, mas por considerar que há quem desvalorize os restantes em detrimento deles. Ou seja, a repulsa ao anti-semitismo (a expressão está adulterada, já que ele deveria incluir todos os povos daquela região) tem muitas vezes servido para partir do princpio que não há outros perigos e que a história não se pode repetir com outras etnias ou religiões.

E aqui, sou obrigado a aceitar que ao fazer o comentário tenha feito o mesmo de que o acuso agora.Só que PPM falou de qualquer coisa que aqui estava a chegar. Quando, na realidade, a violência racista da extrema-direita já por cá anda há muito tempo. Apenas escolheu desta vez um outro alvo. E disse "finalmente", porque espero que nunca mais se façam comparações absurdas com a chamada "extrema-esquerda".

Por fim, aceito que há anti-semitismo à esquerda. Acho abusivo falar de "cartilha comunista" é manifestamente abusivo. Basta pensar que muitos dos mais proeminentes bolcheviques eram judeus, só para não ir mais para trás. Falar de "cartilha estalinista" talvez fosse mais correcto. Se bem que eu acho que o anti-semitismo é ideologicamente transversal.

Daniel Oliveira


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