Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
Alguma água fria

 


 

 

  1. Lendo os blogues, parece que Portugal está à beira de uma mudança de regime. De uma Democracia consolidada – e segundos os ‘marcadores' que detectam democracias consolidadas, a nossa está – parece que vamos passar para um qualquer tipo de autoritarismo, imagino que socrático.

  2. Gosto sobretudo de ver comentadores que não sabem como é a prática jornalística, comentarem intenções do poder sobre a classe. Fiquem a saber, por exemplo, que muito pior que o poder legislativo é o poder dos tribunais, absolutamente arbitrário e absolutamente ignorante sobre a prática jornalística.

  3. A maioria dos bloggers também escreve num tom que parece indiciar que são uns lutadores pela Liberdade agrilhoados a qualquer coisa. Ele é a ERC, ele é o Pina Moura, ele é o Marcelino, ele é sei lá mais o quê.

  4. Numa coisa concordo, apesar de sermos uma Democracia, a verdade é que não temos uma cultura muito democrática, muito cívica, no nosso dia-a-dia. Os nossos compatriotas não são como gostaríamos. Nem as nossas instituições. Nem as leis. Nem as rules and regulations.

  5. E isso contamina-nos a todos, o que também é normal e previsível, porque a Democracia implica ‘muitos’ e implica que esses muitos sejam parecidos na sua exigência para uns para com os outros.

  6. Considerando a blogosfera uma ordem espontânea, um espaço de discussão permanente e construtiva com muito ruído, mas também com textos belíssimos, eloquentes e inteligentes, é difícil ver onde está esse autoritarismo. Parte do processo permanente da construção Democracia é este revolver do solo que é feito na blogosfera. Refilar, criticar, escrutinar é exactamente o ponto. Mas não é uma lei de Newton, não implica que o mundo mude de um dia para o outro.  

  7. Talvez porque tem pressa, a blogosfera portuguesa escrita pelas elites tem uma certa propensão para a conspiração e para julgar os protagonistas políticos como sórdidos puppet-masters que em breve nos vão obrigar a vestir de igual.

  8. É interessante, porque não é puppet-master quem quer, mas quem tem capacidade para isso. Ao ver ínvias intenções na acção dos políticos, acções que são sempre conducentes a um fim, não estará a blogosfera a passar um inadvertido atestado de inteligência rara aos nossos políticos? Tomara eu que a classe política fosse tão inteligente como é julgada em muitos blogues.

  9. Será que a realidade é mesmo como Lost ou no Prision Break, em que nada é por acaso? Ou é mais como nos romances do Eça, tão mais humana e simples?

  10. Admitamos que é elaborada e recheada de subterrâneos onde tudo é decidido alguns homens. Mas não teremos nós, enquanto cidadãos, meios para instituir uma accountability maior ao que nos rodeia e aflige. Estaremos assim tão agrilhoados, ou é mais fácil falar e escrever do que fazer?



publicado por Pedro Boucherie Mendes
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