Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
O congresso do BE


 


O próximo congresso (2 e 3 de junho) do Bloco de Esquerda vai definir um novo caminho para este partido. Apesar de ser de prever uma luta entre as várias facções, a luta fundamental será entre os que querem transformar o BE, de uma vez por todas, num partido do sistema e, os outros que o quererão manter como partido radical anti-sistémico.


O BE tem de tomar uma fundamental decisão estratégica (e isto já foi dito de uma forma clara, por exemplo, neste texto, por um dos seus dirigentes) ou se assume como um partido clássico - com o normal propósito de chegar ao poder – ou se cristaliza como partido de protesto.





A primeira estratégia obriga a que assuma uma postura de tentativa de obtenção não só de mais votos mas também de uma aceitação institucional por parte do maior partido de esquerda. Para tal, o seu discurso tem de ser mais moderado e vai obrigar, pelo menos, à ocultação de certas condutas radicais. Claro está, que esta estratégia tem como objectivo as consequências de uma eventual chegada ao arco da governabilidade: colocação de pessoas em organismos públicos e afins que lhe permitam obter clientela política e assim a sua manutenção institucional, acompanhada, claro está, do legítimo objectivo de trazer as convicções próprias do partido aos centros de decisão.


É evidente que o objectivo de angariar mais votos podia levar a uma viragem à esquerda tentando entrar na área de influência do PCP. Este caminho, porém, não parece viável. A capacidade de captar eleitorado no PC é muito reduzida para não dizer impossível. O eleitorado comunista é velho, rural e violentamente conservador ou fortemente ligado ao movimento sindical onde a presença do BE é residual ou inexistente, ou seja, sociologicamente nada pode ser mais estranho ao eleitorado e discurso BE. Por outro lado, a “esquerdização” do discurso dirigida a estes segmentos poderia pôr em causa a aceitação institucional por parte do PS.



Esta estratégia tem, porém, riscos sérios: o primeiro é o da descaracterização do actual BE, levando-o a perder o seu actual eleitorado. O PC tem de uma forma ténue, admite-se, tentado rejuvenescer o partido e dirigir o seu discurso a um eleitorado mais urbano e menos conservador. A viragem do BE à direita seria, com certeza, aproveitada pelos comunistas. Por outro lado, a ala esquerda do PS é cada vez mais pequena, sendo a flutuação dos votos entre o PSD e o PS.



O segundo caminho possível para o BE, ou seja, a manutenção da actual linha ou mesmo uma maior “esquerdização” impõe uma constate exploração das chamadas questões fracturantes e, aparentemente, estas começam a ser escassas e cada vez menos exclusivas da esquerda (o debate do aborto, por exemplo, acabou e vai fazer muita falta a esta gente).




Sem estas “questões” o BE seria inevitavelmente obrigado a replicar o discurso do PC com o consequente gradual afastamento do seu actual eleitorado. Mais, este tipo de postura não parece ser do agrado das figuras mais mediáticas do BE que, quer se queira ou não, são as que trazem votos e lhe dão a notoriedade imprescindível. Sem elas, o BE transformar-se-ia, em muito pouco tempo, num grupo de radicais sem assento parlamentar.

O congresso vai deste modo definir se o BE veio para ficar ou se foi um breve fogacho na política portuguesa.



publicado por Pedro Marques Lopes
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