Quinta-feira, 31 de Maio de 2007
No entanto
Comentário do leitor HO:

No entanto, se um dia existir um partido que, recebendo subsídios estatais significativos, faça um cartaz a apelar à aceitação de valores racistas ou homofóbicos, não faltarão posts no sentido do FMS; e muitos a aproveitarem a ocasião - a meu ver, com toda a legitimidade-, para questionarem o financiamento público dos partidos.


publicado por André Alves
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Comentários:
De HO a 31 de Maio de 2007 às 15:31
"O argumento era o de que, se fosse ao contrário, isto é se fosse um cartaz homófobo, haveria muita indignação. E o AAA usou-o para dizer que realmente a direita é vítima dos “media”, do “politicamente correcto intolerante”, blá, blá, blá."

José Barros: se fosse um cartaz homófobo, haveria muita indignação; como houve, de resto, com o cartaz xenófobo - em que até se questionou a legitimidade do uso do espaço público. Isto é uma questão factual.

A direita, a meu ver, não se deve vitimizar - não é próprio. Quanto ao "politicamente correcto intolerante" que impera nos "media" é, a meu ver, evidente. Também no caso da homossexualidade e da homofobia (embora me pareçam existir outros piores). A Camille Paglia, lésbica, feminista, pornógrafa e pagã, escreveu uns brilhantes artigos nos anos 90 sobre um clima que existia, e existe, na América, a que chamou "o estalinismo gay". Fazem cada vez mais sentido quando aplicados a Portugal.

"Quanto ao seu problema de que assuntos como o aborto ou a liberalização das drogas sejam da consciência de cada um, isso realmente mostra, como já reconheceu, que não é liberal. . Isso é que é trágico para a liberdade de pensamento de cada um. Pertenceria a um partido que me desse liberdade de voto nessas questões; não pertenceria a um que definisse disciplina de voto nessas questões."

Eu nunca pertenceria a um partido que me tolhesse a liberdade de consciência ou me inibisse a liberdade de pensamento, fosse lá sobre que assuntos fosse.


De José Barros a 31 de Maio de 2007 às 02:34
Todos os partidos são financiados pelos contribuintes. Há partidos que decidem publicar cartazes a promover uma agenda progressista (vide, este da JS), como há partidos que publicam cartazes que promovem valores conservadores (veja-se cartazes do PP por alturas do referendo do aborto). O princípio da neutralidade do Estado em nada é afectado pelo modo como os partidos gastam o dinheiro dos contribuintes. Havendo pluralismo, o argumento não tem ponta por onde se lhe pegue. E isto por muito que se considere - quanto a mim, bem - que os contribuintes não devem financiar partidos.

Daí que o argumento do HO soe a derrota; não é o facto de o putativo cartaz xenófobo ser financiado pelos contribuintes que legitima o argumento de que o Estado está a promover uma agenda xenófoba ou homofóbica. O argumento é errado quem quer que seja que o defenda. Para além de, eventualmente, desonesto.
Pelo facto de a homossexualidade ser agora uma causa fracturante tanto da direita ou da esquerda, as pessoas não têm de se definir pela pertença a um ou outro lado da barricada. É, aliás, sinal de burrice se assim for. Para um liberal tão pouco faz sentido andar a promover o arrivismo soixante-huitard do BE, quanto enfileirar no conservadorismo serôdio da Opus Dei.


De Tiago Mendes a 31 de Maio de 2007 às 02:52
A resposta ao comentario do HO ainda e' mais simples ainda que a elaborada pelo Jose' Barros. Quem quer se oponha 'a interferencia na liberdade de expressao dos partidos, sera' contra qualquer justificacao ad-hoc acerca do financiamento partidario, independentemente das posicoes reiteradas (desde que nao excedam certos limites, por exemplo, nao fazendo apelos 'a violencia e 'a desordem publica - nunca e' demais lembrar que nao ha' absolutos, certamente que tambem nao na liberdade de expressao). Quem tiver queda para fazer politica de barricada, certamente nao resistira' 'a oportunidade para mostrar o seu frentismo anti-esquerda ou o seu frentismo anti-direita. A isto tudo, a resposta so' pode ser uma: com o mal dos outros posso eu bem.


De José Barros a 31 de Maio de 2007 às 03:09
Aliás, parece que alguns "liberais" citam, mas não aprendem nada com o post do João Miranda sobre conservadores e progressistas.

Pode defender-se uma agenda conservadora. Isso, porém, não é liberalismo, é outra coisa completamente diferente.

Um partido liberal daria aos seus membros liberdade de voto nas "moral issues", podendo eles, a título individual, defender qualquer posição. O que um partido liberal não faria seria promover agendas (conservadoras ou progressistas).

Isto porque não há nada que um liberal mais preze do que a liberdade de consciência. E essa não pode ser colectivizada por um programa partidário em matéria de costumes.

Para um liberal, trata-se, portanto, de assuntos fora da disciplina de um qualquer programa político.

Assim sendo, e por respeito à liberdade de consciência, nenhum programa político liberal pode oferecer directrizes quanto a essas questões fracturantes.


De Ana Matos Pires a 31 de Maio de 2007 às 04:58
O que será questionado não será o financiamento dos partidos mas os próprios dos ditos, espero eu.

Em ciência ensinam-nos que só podemos comparar o que é passível de ser comparável ou, dito de uma maneira mais básica, tipo escola primária do Estado Novo, não se podem dividir maçãs por batatas.


De HO a 31 de Maio de 2007 às 05:35
Caro José Barros,

Lamento, mas não produzi o argumento que o José Barros me imputa; na realidade, nem produzi qualquer argumento especialmente notável - será melhor ler o que escrevi como uma profecia (embora, me disponha, desde já a cumprir a máxima de "put your money where your mouth is"), suscitada a partir do espanto, da estranheza e dos exacerbamentos que provocou o post do FMS.

O meu ponto não é nem mais nem menos do que está escrito e um comentário en passant, uma insinuação contra incertos quase instintiva, não merece grande hermenêutica: se a mensagem do cartaz fosse outra, posts como o do FMS seriam inúmeros e encarados com bonomia (para não dizer que seriam vistos como necessários) pela generalidade das pessoas - incluindo muitos dos que o criticaram.

De resto, também escrevi, logo de seguida (é o comment abaixo do transcrito), para esclarecer o "posts no sentido do FMS": "Ou melhor: bem piores e completamente liberticidas"

Julgo que o "bem piores" é esclarecedor q.b. sobre a minha opinião quanto à tese do estado estar a promover agendas num ou noutro sentido. Defendo que os partidos detenham uma amplíssima discricionariedade quanto às mensagens que pretendem veicular na sua propaganda, venha o dinheiro de onde vier; mas não percebo o choque e a crítica acérrima ao FMS por este ter aproveitado o aparecimento de um cartaz que não lhe agrada (eu acho-o - ao cartaz, não ao FMS -, francamente idiota) para colocar em causa o sistema de financiamento público dos partidos. E a "legitimidade" que referi é precisamente essa: a de pôr em causa o financiamento público dos partidos, mesmo fazendo uso da "agenda mediática" e dos tiros nos pés que estes dêem. E olhe que eu nem tenho grandes problemas com o financiamento público: "Já agora, este é um dos gastos públicos que qualifico como assente em razões atendíveis e que menos me preocupa".

Posto isto: derrota? Que derrota?

Um abraço.

p.s. - é claro que, acessoriamente, se pode inferir no meu comentário uma crítica à forma como a "tolerância" é entendida por muitos hoje em dia - como "aceitação" do que é "distinto".

pps - Quanto ao que faz ou não sentido para um liberal, it's none of my business: não sou liberal, nunca fui e , se entendo bem essa remissão dos "moral issues" ou "questões fracturantes" (quem decide quais são?) para a liberdade de consciência (seja lá isso feito da forma que for), Deus me livre de vir a ser.


De blogue atlântico » Blog Archive » Com um beijo a 31 de Maio de 2007 às 10:34
[...] um pormenor que faria com que algumas pessoas se aborrecessem com isso: aquela lei maçadora chamada Constituição que prevê que ninguém deve ser discriminado em [...]


De José Barros a 31 de Maio de 2007 às 15:12
Caro HO,

O argumento era o de que, se fosse ao contrário, isto é se fosse um cartaz homófobo, haveria muita indignação. E o AAA usou-o para dizer que realmente a direita é vítima dos "media", do "politicamente correcto intolerante", blá, blá, blá. Admito que não é isso que o HO quisesse dizer, mas é o que lá está e foi nesse sentido que foi citado pelo AAA.

Quanto ao seu problema de que assuntos como o aborto ou a liberalização das drogas sejam da consciência de cada um, isso realmente mostra, como já reconheceu, que não é liberal. Um mal destas questões é achar-se que tem de haver um programa partidário que define para todos os deputados ou membros do partido a posição certa sobre o aborto ou o casamento homossexual. Isso é que é trágico para a liberdade de pensamento de cada um. Pertenceria a um partido que me desse liberdade de voto nessas questões; não pertenceria a um que definisse disciplina de voto nessas questões.


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