Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007
O sentido de um debate
Rui Ramos
[Público de ontem]



O debate televisivo entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, na semana passada, terá sido porventura o episódio político simultaneamente mais patético e mais esclarecedor dos últimos anos. Aqueles cuja paciência é mais resistente, puderam fazer uma descoberta: ao contrário do que é moda dizer, Mendes e Menezes têm ideias. Mais: ideias divergentes, não só do PS, mas um do outro. Simplesmente, vimos também esta coisa curiosa: nenhum deles, ao longo da penosa hora e meia do “agora dizes tu, agora digo eu”, pareceu dar-se conta disso. Menezes atacou a política de Sócrates em nome do investimento público. Mendes atacou a política de Sócrates em nome do investimento privado. E quando esperávamos que, na ausência de Sócrates, os dois confrontassem os méritos das respectivas filosofias, ei-los a evadir a sua incompatibilidade, para tratarem do pechisbeque da política: contradições, atestadas por recortes de jornais velhos.





O problema de Mendes e Menezes não está em qualquer identificação ideológica entre si e com o PS, mas na incapacidade para tirarem as devidas consequências das suas diferenças. E isso é tanto mais curioso quanto, nos dias seguintes, Menezes renegou os “pactos de regime”, como forma de acabar com a impressão de que “se está de acordo em tudo”. Não deveria ter começado em casa, isto é, no partido? Não, e a razão é óbvia: Mendes e Menezes pertencem a um partido sem estômago para suportar um outro tipo de debate, que não o joguinho da “coerência e contradição”.

Não há que culpar o peso dessa indefinida “social-democracia à portuguesa”, manhosamente adoptada pelo velho PPD no fim de 1975. Devemos antes olhar para o que Menezes, referindo-se à situação partidária, descreveu como um “definhamento que já dura desde 1990-1991”. E aqui, o PSD não é muito diferente dos outros partidos parlamentares, sem excepção. Os partidos portugueses são uma espécie de indústrias falidas, protegidas pelos subsídios do Estado e por um sistema eleitoral que lhes tem garantido o mercado dos votos. A militância partidária é quase sempre, em países democráticos, animada pela recolha de fundos. Financiados e confundidos com o Estado, os partidos portugueses dispensam militantes. No PSD, só um terço dos inscritos pagou as quotas, e uma parte desses nos últimos dias antes das “directas”.

Não fossem as “directas” e o PSD seria feliz sem militantes. O seu funcionamento ficou retratado pelas próprias candidaturas. Mendes reconheceu a urgência de “moralizar práticas internas do partido”. O mandatário de Menezes já sugeriu a possibilidade de interpretar a eleição como um “acto sem valor moral, político e jurídico”. Na falta de uma verdadeira democracia interna, isto é, de um povo militante interessado em discutir com transparência a orientação do partido, os candidatos vivem de arrebatar “estruturas locais”, seduzir barões, ou impressionar jornalistas. A este nível, pode-se discutir pessoas e procedimentos, mas não projectos políticos, que são naturalmente indiferentes para burocracias partidárias, notáveis movidos por considerações pessoais, ou uma imprensa com fome de indiscrições.

Nada disto teria importância, fora das páginas de crónica política, se bastasse aos Portugueses deixar o Estado aumentar impostos e conter despesas. Acontece que não basta. Talvez não seja excessivo insistir na situação excepcional do país. Pela primeira vez nos últimos cinquenta anos, Portugal diverge consistentemente da Europa, já por si uma das regiões menos dinâmicas do mundo. O governo de José Sócrates tem um plano: consiste, entre outras coisas, em distribuir computadores. E se essa distribuição não chegar? Convinha que houvesse outro plano dentro deste regime, protagonizado por um dos grandes partidos. Há trinta anos, quando uma grande parte da esquerda queria fazer passar o futuro do país pelo desfiladeiro das nacionalizações e do poder militar, o PSD representou esse outro plano.

Hoje, é considerado de bom tom dizer que não há espaço para alternativas, por causa do apego da população às larguezas do Estado social. Talvez esse apego exista, mas os Portugueses, como se viu nos últimos anos, não o podem pagar, senão à força de empobrecerem. Se o PSD fosse um outro tipo de partido, poderia tentar envolver os cidadãos na construção prudente de um outro modelo social, que combinasse com maior eficácia e justiça a criação de riqueza e a garantia de uma vida digna. Mas o PSD é o que é – o mesmo que os outros partidos. E se no caso dos outros, daí não vem mal ao mundo – no caso do PSD, vem um pequeno mal ao país.

publicado por Paulo Pinto Mascarenhas
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