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blogue atlântico

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26
Mar08

Boicotar o boicote

Ana Margarida Craveiro
Esta discussão do eventual boicote aos Jogos Olímpicos não faz sentido nenhum. A China não se tornou de repente numa potência tirana: a escolha da República Popular da China prendia-se com a não-segregação do país, atraindo-o para a ribalta internacional, ao invés de uma emergência obscura, fora de atenções dos media. Não se tratou de um prémio de bom comportamento, mas de de um empurrão para o meio da sala, à vista de todos. A China, longe de se sentir embaraçada, continuou com o comportamento de sempre, sendo o Tibete e a província de Xinjiang os melhores exemplos. Verdade? Não inteiramente. Com a responsabilidade da organização, vieram as pressões de bastidores, como a que levou a que a China se demarcasse do governo sudanês, apoiando a força de peacekeeping e nomeando um Representante especial para a crise do Darfur . A revista Time refere ainda a libertação de prisioneiros Uighur , conseguida discretamente pela Administração Bush .
Boicotar os Jogos Olímpicos não é só boicotar os esforços desportivos dos atletas, para quem se joga uma carreira, uma vida; boicotar os Jogos Olímpicos é condenar o povo chinês ao submundo dos párias, em permanente ódio com o Ocidente, e cada vez mais afastados da transparência. E, sobretudo, é boicotar os esforços de democratização e promoção de direitos que têm tido tantas pequenas vitórias durante este último ano.
18
Mar08

Erros de percepção

Ana Margarida Craveiro
Os tibetanos cometeram um erro grave de percepção: assumiram que a aparente abertura da China implicaria um grau de auto-limitação quase ao nível das democracias. Acreditaram que a exposição internacional era suficiente para controlar os ímpetos violentos de uma ditadura anacrónica. Ou seja, com as atenções postas na China devido aos Jogos Olímpicos e à relativa abertura de mercado, o Governo chinês sentir-se-ia constrangido nos meios de repressão a usar no Tibete face a insurgências, porque a publicidade negativa e a pressão seriam mundiais. Porém, não há grande diferença entre a China de hoje e a China de 1989, que aparentemente também estava num caminho de liberalização política. A auto-limitação das democracias vem da relação umbilical com a sociedade, com o eleitorado. É este último que condiciona a acção dos governos, as escolhas que lhes é permitido fazer. Não existe qualquer condicionamento eleitoral na China. Nem existirá, enquanto o Partido Comunista chinês estiver no poder. Não há reforma possível, e os Tibetanos perceberam-no da pior maneira.
11
Mar08

La Rage au Coeur

Alexandre Homem Cristo

La Rage au Coeur

 

Ingrid Betancourt é refém das FARC desde 2002, e as notícias mais recentes sobre o seu estado de saúde são preocupantes. Sarkozy já afirmou que ele próprio se deslocaria ao local se essa fosse a vontade das FARC para a libertação de Ingrid, hipótese entretanto afastada pelo bombardeamento de que foi alvo o campo de treinos das FARC na fronteira da Colômbia com o Equador. Há algo verdadeiramente perturbador no meio de toda esta história, para além do óbvio sofrimento de Ingrid e da sua família.
A França é o país da defesa dos direitos humanos, a “potência” dos valores democráticos. No entanto, Ingrid Betancourt, colombiana com fortes ligações a França, foi rapidamente esquecida na Europa, tornando-se uma triste história de luta pela liberdade, um fado inevitável do qual nos recordamos nos dias mais difíceis. Não chega. A relação de Ingrid Betancourt com França foi sobretudo a sua formação e juventude, pois completou a sua escolaridade em Paris, onde viveu durante muitos anos. De regresso à Colômbia, assumiu-se entre todos os outros, no meio da multidão, e quis impor a liberdade a um país dominado pela corrupção. No fundo, Ingrid fez mais pelos valores defendidos na Europa que os próprios europeus. Tornou-se um mito, sobretudo em França onde a divinizaram. Mas quando as coisas correram mal, os europeus revelaram-se, como sempre: fala-se muito, mas nunca se faz nada.
Para além disso, a emergência de Hugo Chávez em cena é preocupante. Primeiro porque tem uma relação privilegiada com as FARC, uma organização terrorista, que terá financiado com 300 milhões de euros. E depois, porque não devíamos deixar que seja um tirano a fazer o nosso trabalho. Sem cair em considerações sobre o chamado Eixo do Mal, não deixa de ser irónico que a melhor hipótese de Ingrid, que lutou pela liberdade e justiça, é ser salva por um tirano. Mas a verdadeira questão não é moral. Ironias à parte, importa sobretudo que Ingrid seja salva. O ponto é que cada vez mais os regimes autoritários procuram legitimidade democrática junto da comunidade internacional (na Venezuela, as últimas eleições legitimaram Hugo Chávez como líder nacional; na Rússia, Putin poderia ter alterado a Constituição e reeleger-se Presidente, mas preferiu colocar uma marioneta no lugar). Não podemos deixar que países como a Venezuela e a Rússia se auto denominem democracias menos desenvolvidas ou em crescimento; são regimes autoritários. Para Hugo Chávez, salvar Ingrid Betancourt tornou-se um ponto primordial, pois fortalece a sua imagem, a de líder venezuelano, e a de opositor aos EUA.
É lamentável que a colombiana esteja mais próxima de ser salva no momento em que há mais interesses em jogo.
[Recomendo, para aqueles que ainda não conhecem, o livro de Ingrid Betancourt, escrito em francês e lançado em 2001, no ano antes de ter sido raptada pelas FARC. La Rage au Coeur. Abaixo fica um excerto.]
05
Mar08

Quem quer ser independente?

Ana Margarida Craveiro
Temos uma ampla lista de metáforas à escolha: bola de neve, dominó, balcanização, caixa de pandora. A Ossétia do Sul e a Abcásia renovam os seus pedidos de independência, continuando esta espécie de primavera dos povos que dura há vários séculos, sem nunca ter um fim (a pulverização da Europa em estados é um tema que nunca arrefece, por muito que se anuncie a cristalização final das fronteiras). E agora, que argumentos teremos para recusar a secessão? A cada nação, o seu território, certo?

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